terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Pensando no presente, vi o futuro

Entrou agitada na sala e gritou dizendo:
- Achei um desenho legal! Agora sim terei uma tatoo original!

Enquanto tatuavam sua nuca, ela pediu cuidado com o piercing recém colocado na orelha. E pra passar o tempo ela falou da família e do casamento.

- Ah, casei na praia! Sem véu, sem grinalda, mas com tantos amigos reunidos que quase a festa não acabava. E essa semana meu filho veio me abraçar todo contente por ter defendido um pênalti na escola. Pra comemorar fiz a comida que ele mais gosta. Depois do almoço ele correu no meu quarto e trouxe o violão: '- Mamãe canta a música que você fez pra mim?'. E não tive como recusar o pedido do meu campeão.

Ela não parava de falar, acho que pra se livrar da dor causada pela agulha.

- Rapaz, Foz do Iguaçu é uma beleza, você tem que ir. Quando fui tirei foto até com a pantera! (risos)

Ainda falou da faculdade, da brincadeira de escrever um livro e de seu time que jogou bonito lá em Tóquio. No fim, já perto de sair, alguém perguntou se ainda faltava alguma coisa pra ela fazer nessa vida. E ela respondeu rapidamente:

- Ainda darei um pulo em Paris, somente depois de visitar o Louvre é que eu descansarei feliz.


Obs.:
• Descanse o rato nas palavras em negrito e leia a lista.
• 'Pantera' é um dos apelidos de uma amiga que mora em Brasília.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Dance para não dançar

Entrou em casa batendo a porta, além do cansaço habitual, nada havia dado certo naquele dia. Foi andando e abandonando os objetos pessoais pelos cantos. Descalçou os sapatos, jogou a bolsa no sofá, os óculos e outros acessórios também ficaram pelo caminho. Chamou pelo companheiro e o silêncio veio como resposta. Estava sozinha. Respirou profundamente e permaneceu por alguns segundos com os olhos fechados.

Passado o pequeno instante de meditação caminhou até a estante, pegou seu disco predileto, ligou o aparelho de som e, enquanto esperava a música começar, soltou os cabelos jogando-os para trás com um balanço de cabeça semelhante aos de comerciais de shampoo. Correu para cima do sofá e ao primeiro acorde da canção pulou o mais alto que pôde pra cair estrategicamente em cima das almofadas amontoadas no chão da sala.

A música era 'Dancing Queen' e no repeat ela saiu das almofadas endiabrada com passos, gestos e acenos enlouquecidos. Dançou. Cantou. Cantou e dançou muito. Transformou-se em uma verdadeira rainha da dança. Quis mais saber de nada. Quando já exausta, encenou um desmaio e deitou nas almofadas.

Durante aqueles minutos de dança pode esquecer o dia tão cheio de contrariedades. No fim nada tinha sido resolvido, mas depois de um dia de cão, como o que ela teve, dançar igual a uma 'cachorra' louca pode mesmo ser a redenção.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

É a terra que querias ver dividida...

Capa preta, letras grandes, brancas e lilás. Bonito de se ver, emocionante ao ler. O livro que escolhi é sobre a história do retirante Severino, como tantos outros de pia, 'Morte e vida Severina' do João Cabral de Melo Neto.

Foi o primeiro livro que me prendeu e surpreendeu. A rima corrida, a melodia que envolvia meus olhos e tão logo viraria canção em minha mente, tudo incrivelmente coerente. Ainda mais para mim, uma descrente da existência de bons livros entre os indicados pelos professores para teste.

Do livro veio uma das lições mais importantes que se deve aprender: 'pra tudo há jeito, menos pra morte'. Porque ela sempre vem, seja a Severina ou não. E não importa quanto bruta, seca e triste possa ser essa vida não há motivo para desistir de um sonho, mas viver é melhor que sonhar.

Esse é o meu livro, minha escolha, entre tantos outros lidos e que poderiam ser selecionados. Até porque acredito que todo livro é útil, mesmo que seja só pra servir de enfeite em estantes intocáveis.